Crônicas de uma Professora

Maio, 14.

Eu faço parte da Gente Diferenciada, e você?

Interesses privados contra interesses coletivos.

Sabadão à tarde, me deparo no twitter com o seguinte hashtag: #gentediferenciada. E como sempre fui atrás saber do que se tratava.

Ah, eu tinha lido dias antes, da solicitação do desvio da linha laranja do metrô que passaria pelo bairro de Higienópolis (palavra derivada d latim que significa, que coincidência, cidade da higiene).

Trabalho no centro de São Paulo há 15 anos, utilizando trem e metrô diariamente. Leciono numa região degrada do centro, em que a presença do poder público se resume ao prédio da escola. E tenho que me deparar com esse tipo de constrangimento, o de ser tratada como “gente diferenciada”, (a burguesia paulista consegue banalizar até os termos clássicos como “classe trabalhadora”).

Não é preciso, mas é sempre bom lembrar que o transporte coletivo em São Paulo e Grande São Paulo continua insuficiente e ineficiente para atender toda a população. Mas mesmo assim, o governo se dá ao luxo de ceder ao pedido de uma minoria, que alegam que “as pessoas que utilizam o metrô são diferenciadas, atraem camelôs e churrasquinhos”. É, esse é o Brasil.

A burguesia brasileira quer usufruir do trabalho da “gente diferenciada”, da mordomia que esse trabalho lhe trás, porém, não quer de forma alguma conviver no mesmo espaço, muito menos num espaço apertadinho como o metrô.

O grande absurdo de tudo isso é colocar interesses privados de uma minoria, acima de política pública e planejamento urbano, para beneficio de uma maioria.

Infelizmente não me organizei para ir ao churrasco de queijo coalho, organizados por essa gente diferenciada, do qual fazem parte milhões de brasileiros que se espremem todos os dias no transporte coletivo nesta cidade.

Trabalhadores de Higienópolis protestem! Vocês são Gente Diferenciada!

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