Mulheres periféricas - Uma Vitória...


Maio, 29

Mulheres periféricas - Uma Vitória...
Essa crônica de maio começaria assim: mês dos trabalhadores, pra quem luta e mês das mães, pra quem consome... Mas uma amiga, mãe, guerreira, trabalhadora que nos deixou, me mostrou que mãe e trabalhadora são uma única e mesma coisa: mulheres, mas não quaisquer mulheres, sobretudo mulheres periféricas.

Puxo pela memória e bem me lembro: a máquina que usavam pra lutar era uma máquina com várias agulhas e linhas, pedais... Nos bonecos: braços, cabeças, e vira pra cá, e virá pra lá e a molecada não tinha tempo de brincar, porque tinha que ajudar a virar os bonequinhos. As quatro da matina elas estavam lá e antes do Sol nascer saiam pra entregar as encomendas: subir o morro com um saco enorme nas costas, e quanto maior ele fosse, talvez sobrasse algum pra compar uma bolacha recheada no supermercado.

Apesar disso, também me lembro dos sorrisos, conversas que eu não entendia muito (e nem devia), uma dava apoio a outra, mesmo quando ficavam em silêncio. Tardes com bolos, mas entre uma lágrima e outra se ouvia um gargalhar. Em suas conversas: maridos, filhos, trabalho, sonhos... ser mulher não é tarefa pra qualquer um! Ainda mais, ser mulher negra, nas periferias deste país com suas raízes machistas, racistas...

Um almoço na garagem, um carinho, uma despedida, uma lembrança pra ficar. Numa última conversa me disse que uma coisa que não conseguiu foi sua aposentadoria, sua merecida aposentadoria. Aí me lembro da CPI que vai virar pizza, e o cara vai continuar comendo caviar. E me lembro do outro que aos trinta e cinco já está se aponsentando e mesmo se vivesse mais de 100 anos não conseguiria gastar tudo o que ganhou. E essa guerreira, que como muitas,  trabalhou dia e noite e não conseguiu se aposentar... E a justiça? Existe? Há muito tempo tenho certeza que não.

Deixa pros filhos, netos, amigos, parentes (até nós, os postiços) sua garra, sua luta, sua vontade de viver. Nela vejo representada a luta da Dona Terezinha, pras deixar pras suas filhas moradia digna (mas minha querida vó terá um crônica especial) e vejo as muitas Marias, Genildas, Cidas, Nilzas, Antonias, Marlenes, Severinas, Raimundas, Anas, Geraldas, Vitórias, a sua mãe, a minha...essas mulheres, mulheres periféricas.

Força para os filhos da "tia" Vitória, pois a saudade ficará para todos nós!

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