sábado, 17 de dezembro de 2016

A escolinha do morro, a professora e os estudantes.

  Em 08 de março de 2007 (Dia Internacional da Mulher) ingressei como professora de Geografia no CE 406, também conhecido como SESI Itapark. Passei a lecionar Sociologia a partir de 2010. Foram cerca de 10 anos letivos, encerrados no último dia 07 de dezembro. Foram MUITAS BATALHAS DE IDEIAS E MUITAS PROBLEMATIZAÇÕES. Aqui divido um pouquinho dessa experiência.

A escolinha do Morro

A escola fica no alto do morro no Jd Itapark, um bairro bem periférico da cidade de Mauá. Acho que por isso me identifiquei rápido, pois vários estudantes moram no mesmo bairro que eu, outros vinham de outros bairros igualmente periféricos da cidade. Uma escola pequena, sem grades, com visão para todas as salas de aula, quase uma utopia pros dias atuais.

Um detalhe muito bacana eram as releituras feitas por estudantes por toda parte da escola, que tornavam o ambiente quase uma pinacoteca. As obras chegaram a ser expostas no CAT, conhecido como SESI do Zaíra. Com destaque para um quadro gigante da obra do pintor italiano Sandro Botticelli, O Nascimento de Vênus, que impressionava pelos detalhes muito idênticos ao original, pintados há mais de uma década por estudantes coordenados pela professora de arte. Sem dúvida um legado dos estudantes para escola, mas que ano passado foi APAGADO com tinta branca, de forma arbitrária, sem consulta à comunidade escolar. A pinacoteca foi desmembrada também e acabei ganhando uma releitura do Caribe de um dos meus alunos do 2º ano do Ensino Médio. Uma pena, porque não se APAGA obras de arte, seria o mesmo que entrar na capela Sistina e pintar os quadros do Michelangelo, todos ficamos bem chateados, que fique registrado.

Soubemos que a escola era chamada por alguns colegas de outras unidades de "escolinha do morro", uma referência pejorativa à sua localização periférica e a condição socioeconômica dos estudantes. Num primeiro momento isso soou muito ruim aos meus ouvidos, mas tempos depois coloquei isso ao meu favor nas aulas de Geografia, sempre buscando a construção da autoestima dos estudantes. 

No mês de setembro foi anunciado que a escola seria fechada e os estudantes transferidos de forma compulsória para outra unidade, mas uma grande mobilização mostrou a força dessa comunidade escolar, e pais e estudantes reverteram a situação, porém, os alunos do Ensino Médio foram remanejados para o Zaira, e tivemos a redução de aulas dos professores remanescentes.

A professora e os estudantes!


No inicio tudo foi difícil, porque entrei pra substituir um professor muito querido (que veio a falecer dois anos depois), e as turmas tiveram certa resistência, assim como muitos colegas de trabalho, porque, como deve imaginar o leitor que me conhece, eu já chego chegando. Aos poucos estabelecemos uma relação, que cada vez mais foi ficando intensa.

Conheci pessoas que se tornaram mais que colegas de trabalho, pessoas com quem aprendi muitas coisas, principalmente nas divergências, e que levarei para sempre, referências na prática de ensino e aprendizagem, e parceria no dia a dia, sobretudo a construção do respeito pelos estudantes. E não posso esquecer que foi nessa escola que conheci minha referência de coordenadora, que fez com que muitas coisas, incluindo a burocracia, passassem a fazer sentido pra mim, além de ser uma pessoa com quem tive muitas trocas e afinidades.

No CE 406 pude viver algo que dificilmente se repetirá: acompanhar os adolescentes do 6º ano do Fundamental II ao 3º ano do Ensino Médio. Isso foi incrível meus amigos!!!!

Acompanhar essa fase e aprender a compreendê-la, com todas as mudanças que isso envolve. E lembrando que nem tudo foram flores, porque, afinal de contas, tantos anos de convivência trazem conflitos, contradições e a própria rotina nos cansa, é uma máquina de moer gente, como diz o poeta, além disso, todos passamos por mudanças ao longo dos anos, os adolescentes ainda mais.

Eu aprendi a lecionar Geografia na prática de sala de aula, e fui aperfeiçoando a relação professora /  alunos com o tempo, sempre incorporando o mantra: a aula é nossa. Quando iniciei o trabalho com Atlas Geográfico foi uma experiência muito boa pra mim, espero que pra eles também tenha sido. As aulas de Sociologia foram um desafio, porque não tinha nenhuma experiência com Ensino Médio, mas logo peguei o jeito e tivemos altos e baixos, afinal, com uma ou duas aulas por semana,construir vínculos é muito difícil. Logo entendi que se desse mais voz aos estudantes as aulas poderiam ser mais interessantes, e os seminários foram fundamentais neste processo, com grupos me surpreendendo ano a ano. Me tornei a professora dos "temas polêmicos" e também do audiovisual, porque sempre tinha um indicação de filmes para os assuntos trabalhados.

Aliás, falando em filmes, eu sempre tive um pra cada ano: Uma História de Amor e Fúria, Central do Brasil, Panteras Negras, Tempos Modernos, Em Boa Companhia, Crash, no limite, Segunda-feira ao Sol e Beleza Americana, são alguns dos longas que trabalhei, além de muitos curtas e séries para mobilizar, problematizar ou sistematizar os conteúdos.

Muitos frutos como professora tenho colhido ao longo dos anos, quando recebo a devolutiva dos estudantes sobre o que aprenderam com nossas aulas. A sala de aula não tem um produto acabado, o que construímos é algo totalmente inconcluso, e vira e mexe recebo notícias de meninos e meninas com alguma boa lembrança.

Conheci estudantes maravilhosos, incluindo os que hoje posso chamar de parceiros de utopias, na possibilidade de construção de mundo melhor.

De garotos que me dizem que passaram a pensar sobre o suas ações machistas ou homofóbicas, à meninas que passaram a pensar no feminismo como forma de construção da autoestima. Me tornei também uma referência quanto a identidade étnica e racial, sendo procurada, inclusive, para denuncias de práticas racistas na escola.


Foram centenas de estudantes que conheci nestes 10 anos letivos e não citarei nomes porque será injusto se esquecer de alguém, mas podem se considerar todos contemplados aqui, e saibam que nesse processo de ensino e aprendizagem, eu certamente aprendi muito mais com vocês do que o contrário! Na relação do dia a dia em sala de aula, se o estudante não é seu maior parceiro, a docência pode ser apenas um amontoado de frustrações.

Tenho muitas histórias pra contar mas cada um delas daria uma crônica, assim, conforme for me lembrando, contarei.

Muitos alunos me perguntam por que eu quis sair da rede se tinham mais coisas boas que ruins, e devo dizer que isso foi um processo construído. Eu entrei com planos pra ficar apenas 5 anos e com o salário um pouco melhor, construir minha casa, alcancei minha meta, mas aí fui ficando, e como muitos profissionais da educação, parei de me dar conta do excesso de trabalho, e isso vai nos adoecendo, além de não ter tempo pra fazer mais nada, como cuidar de forma mais qualitativa do meu filho. Eu sempre brincava com as colegas que todo ano era o último, porque ficar até me aposentar (piada! rs) nunca foi um objetivo! Mas pra resumir isso, recentemente numa entrevista do Pedro Cardoso pra Trip, ele disse (no tocante à Grande Família) "que tudo deve durar o tempo de nossa saúde", e acho que isso serve pra tudo na vida! Saio da rede com muitas aprendizagens, inclusive com apresentação de prática docente, publicação de trabalho, ou seja, com algum reconhecimento profissional, e com a certeza de que fiz o meu melhor, e sobretudo fiz da forma como acredito que deve ser, sem colocar minha dignidade e ideais em risco. Estou feliz e sigo tranquila para outros desafios.

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