terça-feira, 23 de maio de 2017

Adoniran é zica!



Outro dia uma aluna minha da 3ª série me disse: “Prô Janaína, você é Zica!”. Zica sempre me remeteu a coisas ruins, só descobri depois que Zica é coisa boa hoje em dia. E por aí vão os termos mudando e mudando, como as gerações.
Me lembro bem que anos atrás trabalhei com meus alunos da 6ª série, uma releitura de Saudosa Maloca, desafiando os alunos a escrever os versos em norma culta... A maloca realmente ficou saudosa, não dava mais pra cantar como Adoniran Barbosa, perdeu a identidade. Pena que na época não trabalhei o preconceito lingüístico (por falta de conhecimento). Hoje, quando trago Saudosa Maloca pra sala de aula, além de falar dos problemas urbanos, trato também das variações e preconceitos com relação aos sotaques.

Nunca escutei ninguém dizendo que Adoniran falasse errado, costumam dizer que “é a mistura do português com o italiano”. Ele teve suas canções interpretadas por belas vozes como as das saudosas  de Clara Nunes e Elis Regina. O problema não é de fato as variações da língua, mas o preconceito contra quem fala. Ninguém discrimina Adoniran porque ele  era filho de imigrantes italianos, era artista, sambista, paulista!

Fico estarrecida quando ouço meus alunos da EJA simplesmente se conformarem que falam errado, e não terem consciência das origens da fala. Passam a ter vergonha de falar, de se expressar, de compartilhar.

Concordo que precisamos ter uma base como referência, principalmente na educação, afinal, linguagem é o pensar, o fazer, o refletir, e quanto mais ampla a linguagem, mais possibilidades de se ampliar o pensamento. O que não significa de maneira alguma que só é amplo o pensamento de quem conhece a norma culta.

Não tenho dúvidas de que para ampliar o vocabulário de meus alunos de forma significativa tenho que incentivá-los a leitura, ler de Machado de Assis a Marcelino Freire, passando por Ferrez e Guimarães Rosa.

Assim como não tenho dúvidas de que posso compreender as coisas da vida ouvindo Abrigo dos Vagabundos de Adoniran Barbosa, Construção, em norma culta pra ninguém botar defeito, de Chico Buarque, com o baião de Luiz Gonzaga e ainda mais com Negro Drama dos Racionais Mc's e como diz o Mano Brow na “Gíria não, (no) dialeto!”.


E já que está frio e vou “homenagiá” o meu blog com um trechinho de “As Mariposa” de Adoniran:

“As mariposa quando chega o frio
Fica dando vorta em vorta da lâmpida pra si isquentá
Elas roda, roda, roda e dispois se senta
Em cima do prato da lâmpida pra descansá”

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COTAS SIM!

  No tocante a aprovação essa semana de cotas étnicas na Unicamp, um eterno aluno me questiona em rede social porquê sou a favor...