Crônicas de uma Professora

Novembro, 9.

      Ser professor e pensar educação é a mesma coisa?

Há tempos me coloco essa discussão do título, se o fato de ser professora me obrigaria a pensar educação, ou seja, o sistema educacional, as práticas, a licenciatura, e tudo o que envolve a educação de forma mais abrangente. Pra mim, a resposta é SIM!

Completei 10 anos de educação pública, cinco deles, trabalhando, concomitantemente, na Prefeitura de São Paulo e na rede SESI-SP, duas grandes redes educacionais, com grandes potenciais pra se tornarem referência em educação no país, pois possuem um alto investimento financeiro. Esta situação, além de me exaurir fisicamente, me fez pensar sobre as questões educacionais brasileiras. Sendo assim, preciso dizer em letras garrafais que NECESSITO PENSAR EDUCAÇÃO!

Obviamente, é preciso levar em consideração, que o trabalhador docente, tal como toda a classe trabalhadora, é massacrada por um cotidiano extremamente exaustivo, pela sobrevivência imediata, e também pela falta de perspectivas. Quantos de nós, se tivessem oportunidade, neste exato momento, deixariam a sala de aula, praticando a máxima "o último a sair apague a luz". Logo, não se trata aqui de devaneios idealistas de quem nunca pisou na sala de aula, mas de pensar as probabilidades de superação desse estranhamento a que estamos submetidos enquanto profissionais da educação.

Vivemos numa sociedade onde estamos cada vez mais submersos no fetiche da mercadoria,  em "coisas" que parecem que  nos farão muito felizes... e ninguém, nem mesmo os mais crédulos, têm escapado da "melancolia", dessa maneira, manter a lucidez é questão de sobrevivência, e sobreviver na educação (ou qualquer outra profissão) é ter que pensar sobre ela como um todo, refletir, inferir...


O estranhamento, ou a alienação do trabalho é o que impede, a priori, a classe trabalhadora de se reconhecer. O fato dos trabalhadores da educação participarem de greves não muda em nada sua situação de trabalhador alienado. O pensar e o fazer (executar tarefas) estão separados, juntá-los cabe a nós. Claro, que tal como a metáfora de "Matrix", ao tomar a pilula vermelha, assumimos os riscos de tomar ciência do mundo real, o que é irreversível como nos avisa Morfeus, assim, para uma boa parte, terceirizar as decisões que interferem diretamente sobre suas vidas torna a vida, que já é difícil, um tanto mais fácil. Ledo engano...


Essa terceirização, se refere ao fato de nossa participação ser indireta ou praticamente nula nas decisões que dizem respeito ao sistema educacional, incluindo nossa profissão. Assim, delegamos à um ministro ou secretário, para que pense nas políticas educacionais, ou ainda à pesquisadores nas universidades (boa parte, sabemos, sem prática docente na educação básica). E ainda, muitos professores têm convicção que "pagam" os sindicatos para pensar por "nós", sem perceber que a representação sindical, na maioria das vezes, limita-se apenas às questões econômicas e discute as políticas de acordo com seus interesses, há uma limitação histórica dos sindicatos, é preciso analisar. Ou seja, todos "pensam", opinam e decidem sobre o processo educacional, menos a esmagadora maioria dos docentes (isso sem contar a nenhuma participação dos estudantes da educação básica no processo).

Tenho incômodos com nosso sistema educacional que vão desde a licenciatura (incluindo a que fiz), passando pelo "oficial" e o "oficioso" do cotidiano escolar, atravessando os inúteis 200 dias letivos, com sua grade curricular extremamente fragmentada e não menos inútil, a falta de relação direta entre a "matéria" dada em aula e o mundo real, o número de alunos por turma, o grau de insalubridade da profissão... enfim, um todo que uma crônica será pouco para tantas inquietações.

Não abro mão de pensar meu trabalho. Tenho propostas, quero ser ouvida, tentarei me fazer ouvir. Acho que tenho certa experiência: fui aluna durante 12 anos em 5 escolas estaduais de São Paulo, estudei em vários horários diferentes, e me lembro de centenas de situações, e sou professora  há 10 anos, o que me dão aí uns 22 anos de experiência na educação pública deste país. 

Findo essa crônica com mais questionamentos ainda dos que tinha quando a iniciei, mas não menos disposição de modificar a realidade, afinal não não sou apenas professora, mas uma militante pela educação.




Agosto, 29

     A polêmica em torno da página da menina Isadora na rede social não me surpreende, gosto de alunos críticos,  aliás, me esforço para que meus alunos sejam assim, mas é importante contextualizar e compreender a visão de quem tem 13 anos, e faz parte da geração "Y".  De quem está aglomerado com centenas de outros jovens, por 5, 6, 7 horas por dia, em lugares, por vezes, nada adequados, com recursos nada interessantes.  Acreditamos realmente que eles vão gostar disso? Pra ser sincera nem eu gosto, mas não fui eu quem criou as regras, então vamos tentar pensar um pouco sobre isso.


   Pra mim, a conversa começa afirmando que professores e alunos estão no mesmo barco furado, apesar de parecer que estamos de lados opostos, somos face da mesma moeda. É preciso que se compreenda que a profissão de professor também é trabalho alienado na sociedade capitalista, os professores não são detentores dos meios que poderiam levar à uma mudança substancial na educação, aliás,  nós e nossos alunos somos os últimos a ser consultadosComo modificar a sociedade? Como modificar a escola? 



    A resposta para as duas perguntas é a mesma, pois a sociedade está dentro da escola e vice versa. Na escola temos todo tipo de situação: convivência com pessoas que não se escolhe, a violência, o desrespeito, a amizade, a afetividade, os preconceitos, a burocracia, as obrigações, as reclamações, a vontade, a preguiça, o individualismo, o consumismo, amor, e muita, muita impotência. Sem contar com os problemas de infraestrutura.

   
   Considero fundamental que alguns jovens estejam preocupados com toda essa situação, vários alunos meus também são muito preocupados, e com eles, fazemos discussões e tentamos pensar juntos o que fazer para amenizar os conflitos e melhorar o aprendizado. 

Existe uma visão deturpada no que diz respeito a relação professor / aluno, alguns idealizam, outros demonizam, o fato é que nós somos os adultos da situação e temos que avançar na reflexão, até por questão de saúde mental, embora, muitas vezes ultrapassamos nossos limites de seres humanos. Pra mim, lidar com violência não faz parte da relação professor / aluno. Uma coisa, é traquinagem, brincadeiras, agitação, outra coisa é violência, desrespeito gratuito, agressão sem precedentes, e isso acontece todos os dias, e, já perdi minhas estribeiras sim, quando fui desrespeitada por alguém que acreditava ser meu aluno, porque esta situação não é parte da relação professor / aluno de jeito nenhum. 

Costumo tentar fazer meus alunos me verem como sou, uma trabalhadora, digo sempre à eles que, como seus pais, trabalho para pagar minhas contas, cuidar da família, estudar, realizar sonhos (se é que isso é possível). Enfim, mostrar que somos iguais,  parceiros, e que o dia a dia na escola pode ser bem mais "tranquilo", mas quando o jovem está submerso em outras situações para além dos muros da escola, não há muito o que fazer, deixemos de hipocrisia, pois ao longo desses 10 anos, tivemos vários velórios, licenças e exonerações, e a imprensa e os especialistas, que só cacetam, esses deuses sabedores de tudo, não estavam lá. Só quem já sofreu uma ameça durante a prática do seu trabalho sabe do que estou falando. Várias coisas me incomodam neste modelo escolar, mas lidar com a violência me incomoda muito mais.

      É um debate muito importante, e é bom que ele comece, eu me recuso a ser vitima, quero ser sujeito histórico de mudanças, junto com meus alunos, somos os protagonistas. Em 10 anos de profissão, sempre me debrucei em reflexões e mais reflexões sobre as questões do cotidiano escolar. A questão é totalmente inconclusa, pois faz-se necessário entender a sociedade capitalista contemporânea, e o modelo de escola construído para atender esta sociedade. Ao analisar as relações na escola, e, principalmente na escola pública, sem levar em consideração as questões que envolvem a luta de classes, corremos o risco de ficar na aparência, no superficial, e pior ainda, não sair da inércia.

Isadora, bem vinda ao clube dos inconformados, estamos do mesmo lado.



Oficinas de Comunicação e O Grito do Glicério

No último sábado, 21/10, meus alunos do Grito do Glicério, da Emef Duque de Caxias, viveram uma experiência incrível! Filmagens do curta met...